Uma jornada de quase 1,3 mil quilômetros separa Itaituba, no sudoeste do Pará, da capital de Rondônia. Para centenas de pacientes diagnosticados com câncer na região, esse trajeto por rodovias amazônicas precárias não é turismo — é a única chance de tratamento. A partir de agora, quem percorre essa distância em busca de atendimento oncológico no Hospital de Amor Amazônia terá um lugar digno para ficar, graças a uma iniciativa do Grupo Rodonave, de Sinop.
Os empresários Roberto Dorner e Robisson Dorner, à frente da Rodonave — grupo com raízes em Sinop e presença consolidada em Itaituba desde 1988 —, transformaram um amplo imóvel em Porto Velho numa casa de acolhimento destinada exclusivamente a pacientes em tratamento contra o câncer. A gestão do espaço e a logística de recepção dos acolhidos ficarão a cargo do Instituto Rosa Barreto, entidade social sediada em Itaituba, com apoio de voluntários e parceiros locais.
Uma referência nacional no coração da Amazônia
O Hospital de Amor Amazônia, instalado em Porto Velho, é braço da instituição fundada em Barretos (SP) — hoje considerada uma das maiores referências em oncologia do país. Todo o atendimento é realizado pelo Sistema Único de Saúde, sem custo para o paciente. A unidade rondoniense absorve demanda de diversos estados da região Norte e se tornou ponto de convergência para moradores de municípios distantes, como Itaituba, Santarém, Novo Progresso, Jacareacanga, Uruará e Rurópolis.
O problema nunca foi a falta de hospital. O obstáculo sempre foi chegar até ele — e, uma vez lá, ter onde permanecer. A travessia entre Itaituba e Porto Velho percorre trechos de estradas federais em condições adversas, dentro da floresta amazônica, e cobra um preço alto de quem já carrega o peso de um diagnóstico de câncer. Além do desgaste físico da viagem, pacientes e acompanhantes precisam arcar com alimentação, transporte urbano e hospedagem durante semanas ou meses de consultas, exames e sessões de quimioterapia.
Como nasceu a iniciativa
A mobilização começou quando lideranças de Itaituba procuraram os empresários da Rodonave. Entre os articuladores do pedido estavam Simone Barreto, presidente do Instituto Rosa Barreto, o presidente da Câmara Municipal de Itaituba, Washington Ricardo, e o juiz de Direito Valci Sgateiro. O apelo era direto: os pacientes precisavam de um teto em Porto Velho.
Roberto Dorner, presidente do Grupo Rodonave e atual prefeito de Sinop, conta que não hesitou ao ouvir o relato das dificuldades enfrentadas pelos doentes.
É uma empresa nossa em Itaituba desde 1988, consolidada na cidade. Quando foi feito o pedido, nós sentimos a necessidade de ajudar. É um setor em que muita gente sofre. As pessoas vêm mais de mil quilômetros dentro de um ônibus e precisam de um lugar adequado para ficar.— Roberto Dorner, presidente do Grupo Rodonave e prefeito de Sinop
Para Robisson Dorner, diretor executivo do grupo, a decisão ganhou um caráter pessoal quando a família conheceu de perto a realidade dos pacientes. Ele relata que, antes da nova estrutura, muitos se acomodavam em locais improvisados, sem as condições mínimas de conforto que um tratamento oncológico exige.
A gente sabe que tratamento de câncer não é uma coisa fácil. É um mal que assola muitas famílias. Essas pessoas saem de Itaituba para Porto Velho porque o Hospital de Amor Amazônia é uma referência. Quando vimos a dificuldade dessas mulheres e desses pacientes, isso mexeu muito comigo como ser humano. Junto com a minha família, decidimos fazer desse espaço uma casa de apoio para que essas pessoas sejam acolhidas na busca pela cura.— Robisson Dorner, diretor executivo do Grupo Rodonave
O que a casa oferece
O imóvel cedido pela Rodonave vai além de um simples alojamento. A estrutura foi preparada para oferecer dignidade e bem-estar a quem passa por uma das fases mais duras da vida. Com capacidade para abrigar mais de 40 pessoas simultaneamente, o espaço inclui quartos equipados, cozinha ampla, área de convivência, passarelas cobertas e até piscina — elementos pensados para que pacientes e acompanhantes encontrem um mínimo de tranquilidade longe de casa.
Cerimônia de inauguração
A solenidade de entrega reuniu pacientes, integrantes do Instituto Rosa Barreto e representantes dos poderes público, judiciário e religioso de Itaituba. Marcaram presença o padre Geraldo Bezerra, da Igreja Católica, e o pastor Antônio Carlos, da Igreja de Deus da Amazônia, reforçando o caráter ecumênico e comunitário da ação.
O padre Geraldo classificou o momento como um marco para toda a região e enfatizou que o projeto é fruto de uma convergência rara entre iniciativa privada, sociedade civil e comunidade religiosa.
É um momento histórico. Essa parceria entre a Rodonave e o Instituto Rosa Barreto é extremamente importante para Itaituba e região. Nós voltamos daqui com a missão de ampliar as parcerias e continuar apoiando esse projeto. A Igreja também tem esse papel de comunhão, de estar junto, de servir à vida de tantas pessoas.— Padre Geraldo Bezerra
Uma homenagem póstuma
A casa de apoio recebeu um nome carregado de significado. O espaço foi batizado em homenagem a Tio Nereu, cunhado de Roberto Dorner, que morreu recentemente num acidente automobilístico. Nereu era conhecido na região da Ponta do Abunã pelo trabalho voluntário junto ao Hospital de Amor, onde ajudava a organizar leilões beneficentes que arrecadavam recursos para a instituição.
Visivelmente emocionada durante a cerimônia, a viúva Juraci Dorner recordou a dedicação do marido à causa.
Meu esposo fundou o leilão do Hospital de Amor na Ponta do Abunã. Todo ano ele participava, ajudava e lutava muito por essa causa. É emocionante ver esse reconhecimento.— Juraci Dorner, viúva de Tio Nereu
Robisson Dorner revelou que a memória do tio foi decisiva no momento em que a família avaliava o pedido de ajuda. Ao ser procurado para custear o combustível do ônibus que transporta os pacientes, ele imediatamente associou a causa ao legado de Nereu.
"Quando me pediram ajuda para pagar o combustível do ônibus para que essas mulheres viessem a Porto Velho, me veio à cabeça meu tio, que faleceu indo para Itaituba pela Transamazônica. Ele sempre foi muito solidário com o Hospital do Câncer, fazia leilões e ajudava a arrecadar recursos", relatou o diretor executivo.
O que dizem os pacientes
Além dos discursos oficiais, a inauguração foi marcada pela reação de quem mais esperava por aquele momento. Pacientes que conheceram a estrutura pela primeira vez não conseguiram conter a emoção ao percorrer os ambientes preparados para recebê-los.
É coisa de primeiro mundo. Eu nunca pensei, nessa altura da minha idade, viver um momento desse. São pessoas de coração sem medida. Para mim, eu nasci hoje.— Paciente acolhida pela casa de apoio
Outro relato ouvido pela reportagem traduz o impacto que um ambiente adequado exerce sobre quem luta contra a doença: "Quando a gente faz tratamento, ter um ambiente tranquilo e confortável ajuda muito. A recuperação fica melhor, os sintomas parecem mais leves. Isso é uma bênção de Deus na nossa vida."
Sinop além do agronegócio
Para o Instituto Rosa Barreto, a inauguração representa a concretização de um objetivo perseguido há anos — oferecer acolhimento digno a famílias que, muitas vezes, enfrentam o câncer longe de casa, sem recursos e cercadas de incertezas.
A iniciativa projeta o nome de Sinop para além das fronteiras do agronegócio. Com a casa de apoio, o Grupo Rodonave estende sua atuação social à Amazônia e demonstra que o capital gerado no Nortão mato-grossense pode retornar à sociedade na forma mais urgente possível: cuidando de quem precisa, quando mais precisa.
A partir de agora, pacientes oncológicos de Itaituba e dos municípios vizinhos que chegam a Porto Velho para tratamento no Hospital de Amor Amazônia contam com um lugar seguro, confortável e humanizado para chamar de seu durante a fase mais difícil de suas vidas.